terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Obituário a Nelson Rolihlahla Mandela (1918-2013): morre o homem, sobrevive o mito e o exemplo de vida

No dia 5 de dezembro, eu estava em uma confraternização realizada pelo pessoal do Instituto Cultural Steve Biko quando, às 19:44h, recebi um SMS enviado pela companheira de guerra Paula Libence com a mensagem “Mandela se foi”. Apesar de essa notícia já ser esperada há pelo menos seis meses, eu não quis acreditar nisso logo de início. Enviei outro SMS a ela perguntando onde ela viu essa informação. Ela respondeu que a nota havia saído na manchete da página do UOL e no Correio 24 Horas. Perguntei ao pessoal que estava lá comigo se isso era mesmo verdade, e todas as pessoas disseram que já sabiam do acontecido e que, por conta disso, antes da celebração, seria prestado um minuto de silêncio em homenagem póstuma a Mandela. E isso de fato aconteceu. Nada mais justo e merecido por tudo o que ele representa não só para a África do Sul, mas para a luta antirracista em todo o mundo.

Pensei inicialmente em escrever esse texto no mesmo dia, mas achei melhor não fazer isso assim de sopetão. Fucei a internet em busca de mais detalhes acerca do acontecido e, somente hoje, darei o meu parecer.

Fui dormir com uma sensação nada agradável. Me senti órfão. Como se fosse o meu avô que tivesse morrido. (Na verdade, Mandela é meu avô. Não biológico, mas ideológico.) E não poderia ser diferente. Afinal de contas, e para além do fato de Nelson Mandela ter sido uma das personalidades mais marcantes do século XX, digo sem nenhum medo de parecer pretensioso que o trabalho desenvolvido pelo Instituto Steve Biko (já citado acima), pelo Quilombo Ilha e pelo Quilombo do Orobu é tributário do enfrentamento ao apartheid lá na África do Sul – até porque estas organizações foram criadas para lutar contra o nosso apartheid, que é tão (ou mais?) cruel do que o sul-africano. A história do apartheid é paradigmática para toda e qualquer pessoa que já está envolvida – ou que pensa em se envolver – com a luta antirracista em qualquer lugar do mundo – principalmente no Brasil.

Afinal de contas, e como disse a escritora mineira Ana Maria Gonçalves, autora do livro Um Defeito de Cor, luta antirracista não é coisa para qualquer pessoa. É para quem quer, pode, tem tempo, paciência e sobretudo frieza e couro suficientemente grosso para aguentar as piores misérias e seguir em frente, firme no seu propósito. Se você tem disposição para isso, vá lá. Se não tem, nem entre.
      
Mandela: um homem nascido para ser líder

É impossível não sentir a falta de um homem da estatura de Mandela, que, segundo um dos seus biógrafos oficiais, nasceu para ser líder.[1] Ele nasceu no dia 18 de julho de 1918 em Mvezo, pequeno vilarejo localizado às margens do rio Mbashe, no distrito de Umtata, capital de Transkei. Migrou ainda muito jovem, por volta dos 10 anos de idade, para outro vilarejo próximo, Qunu, onde foi matriculado numa escola britânica. Foi lá que recebeu o nome de Nelson, pois era costume das escolas britânicas trocar os nomes originais das crianças por nomes britânicos. O Nelson Mandela, militante mundialmente conhecido da luta antirracista na África do Sul, foi registrado inicialmente com o nome de Rolihlahla Mandela. No idioma Xhosa, “Rolihlahla” significa “puxando o galho de uma árvore”, mas o seu significado mais coloquial é “criador de problemas”. O pai dele, Gadla Henry Mphakanyiswa, que morreu quando Mandela ainda era uma criança, não poderia ter escolhido nome mais apropriado para o filho. [2]

Aos 23 anos, saiu de Qunu para estudar Direito em Joanesburgo. Lá, pôde conhecer de perto a segregação racial e, de cara, sentiu o desejo de fazer algo para mudar aquela situação. Filiou-se ao Congresso Nacional Africano (CNA) em 1942 e, formado advogado, começou a atuar em defesa de vítimas da violência racial na cidade.

Consolidação do apartheid: discriminação racial como política de estado

Em 1948, o cerco se fechou. Com a ascensão de Daniel François Malan ao cargo de primeiro-ministro, e a consequente obtenção de maioria no parlamento pelo Partido Nacional, o apartheid (palavra da língua africâner, que significa, em português, separação) foi definitivamente implementado como política de estado na África do Sul.

A discriminação racial, que acontecia majoritariamente no âmbito dos costumes, virou lei a partir de então. Só entre os governos de Malan e do seu sucessor, Balthazar Johannes Vorster, foram aprovadas mais de trezentas leis racistas – para sacramentar de uma vez por todas a divisão social por raça no país. Pessoas negras estavam proibidas de usar as mesmas escolas, banheiros, ônibus, hospitais e praias que as brancas. Além disso, foram obrigados a morar em áreas “mais adequadas” à sua raça e, quem se recusasse a sair, foi colocado para fora à força.


Diz a placa em inglês, acima, e em africânder, abaixo: “Para uso de pessoas brancas. Estes locais e instalações estão reservados para uso exclusivo de pessoas brancas. Por ordem da Secretaria Provincial.” 

Um grande contingente populacional foi alojado em pequenas áreas territoriais (as piores e mais mal-localizadas), ao tempo que a elite africânder, quantitativamente menor em índices populacionais, abrangia territorialmente áreas muito mais extensas que as daqueles. A mais conhecida dessas áreas foi o bantustão de Soweto (sigla da expressão “South Western Township”, que pode ser traduzida para o português como “periferia do sudoeste”, por estar a sudoeste de Joanesburgo). Atualmente, habitado por mais de dois milhões de pessoas.

Localização de Soweto no mapa.


Diante dos fatos, Mandela logo percebeu que continuar a luta contra o apartheid através dos canais legais seria impossível. Reuniu a ala jovem do CNA e criou a Lança da Nação (Umkhonto we Sizwe), braço-armado do partido. Afinal de contas, diante da crescente onda de violência racial no país (com destaque para o Massacre de Sharpeville, ocorrido em 21 de março de 1960), Mandela e demais membros da juventude do CNA não demoraram a chegar à conclusão de que, como disse Malcolm X, teriam de resistir “por todos os meios necessários”. 

As vítimas foram mortas com tiros nas costas, enquanto tentavam fugir das balas da polícia política sul-africana

O enterro coletivo das 69 vítimas fatais do massacre. Por conta disso, a ONU instituiu o dia 21 de março como o Dia Mundial de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial.

Para tanto, saiu clandestinamente do país, foi à Argélia receber treinamento militar, retornou à África do Sul também clandestinamente e passou a empreender ações armadas e de sabotagem contra o regime. Reação aos desmandos da força policial, atentados a bomba, ações de expropriação bancária e assassinatos seletivos foram algumas dentre as várias ações diretas contra a supremacia branca. A ordem era resistir para não ser exterminado.

Tudo isso só contradiz a imagem póstuma que circula nos meios de comunicação e no imaginário dos desinformados (e maus-caráteres), de que Mandela fora um homem puramente pacifista. Um homem detentor de uma parcimônia incontestável, que convencia seus detratores num debate dialógico. Não! Ele foi um guerreiro, um homem que pegou em armas para defender a própria vida, bem como as vidas das outras pessoas que viviam nas mesmas condições que ele.

Caçada e captura de Mandela em 1962

Isso posto, a elite dirigente africânder organizou uma verdadeira caçada para colocar as mãos em cima desse “terrorista” de uma vez por todas. Caçada essa que contou com o apoio incondicional e irrestrito da CIA, a Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (país que, como disse Idelber Avelar, apoiou o apartheid durante toda a sua existência e manteve o nome de Mandela na lista de terroristas procurados pelos EUA até – pasmem! – 2008). As informações fornecidas pela CIA foram fundamentais à captura de Mandela, em 1962. Passou dois anos na cadeia até ser julgado, em 1964, quando foi condenado à pena capital por atos de sabotagem contra o Estado. Entretanto, por conta das pressões internacionais, ocasionadas pelo fato de Mandela já ter-se tornado uma figura mundialmente conhecida, teve a pena convertida para prisão perpétua – que, na prática, é também uma pena de morte, só que bem mais lenta.

Foi levado para a Ilha de Robben, prisão de segurança máxima para presos políticos. Essa ilha fica a 11km de distância da Cidade do Cabo, na qual ele só poderia receber visitas de seis em seis meses, mediante solicitação prévia ao governo. As visitas eram monitoradas por agentes carcerários, que exigiam que detento e visitante, que não podiam se tocar por estarem separados por um vidro, conversassem apenas em inglês. Se, a qualquer momento, uma palavra fosse trocada em outro idioma ou algum assunto proibido fosse mencionado, a visita era imediatamente interrompida. Outra, só seis meses depois.

Visão aérea da Ilha de Robben

Entrada do presídio.

Era uma prisão, como já foi dito, de segurança máxima. Além de não poder tocar as suas esposas, filhos e filhas nos momentos de visitas, os detentos eram proibidos de ler os jornais, de ouvir rádio, obrigados a trabalhos forçados e cruelmente torturados em caso de alguma desobediência. As correspondências eram todas lidas e censuradas pelo departamento de censura da cadeia. A única diversão permitida aos detentos (que chegaram a mais de sete mil homens no auge da repressão) era jogar futebol. Era tanta gente presa que havia um campeonato organizado na cadeia, com direito a primeira e segunda divisões. E o futebol virou um fator tão forte de união entre os detentos que, por conta disso, Mandela era proibido de jogar. Todas as vezes em que os homens se juntavam para iniciar as partidas, Mandela era imediatamente recolhido e trancafiado em sua cela. A ele, restava apenas olhar as partidas pela janela da cela – que ficava a uma boa distância do campo de futebol.


(Em 2010, quando da realização da Copa do Mundo na África do Sul, a FIFA reconheceu simbolicamente a liga de futebol da Ilha de Robben como forma de homenagear a todos aqueles que lutaram por liberdade e igualdade.)  

Após dezoito anos na Ilha de Robben, Mandela foi transferido para Pollsmoor, uma prisão considerada “mais branda”, na qual ele já podia conversar com os seus aliados, ouvir o rádio, ler os jornais e ter acesso à biblioteca.


Em seguida, já com 70 anos de idade, com a saúde um pouco debilitada por conta dos problemas respiratórios adquiridos durante o tempo em que esteve na Ilha de Robben, foi transferido para Victor Verster, uma espécie de “prisão domiciliar”, da qual foi libertado no dia 11 de fevereiro de 1990.


Libertação de Mandela e transição política

As imagens da libertação de Mandela são algumas das coisas mais lindas que eu já vi na vida. Foi muito marcante ver a juventude negra sul-africana fazendo a maior festa na frente da penitenciária, de braços abertos para receber o seu líder. Pessoas na faixa dos 20 aos 25 anos de idade, que nasceram quando Mandela já estava preso, mas cresceram ouvindo as histórias contadas por seus pais e mães.




Aquele momento também deixou evidente as razões que levaram a elite africânder a não matá-lo na cadeia. É claro que os altos generais do apartheid quiseram acabar com a vida dele, mas eles não podiam fazer isso. A juventude estava tornando o país ingovernável. A violência da polícia política da supremacia branca já não era mais suficiente para conter o ímpeto rebelde da população negra sul-africana. Quanto mais as forças do Estado tocavam o terror, mais a juventude reagia contra os desmandos do regime. E se Mandela fosse assassinado na prisão, aí é que a juventude negra sul-africana iria com tudo para cima da minoria branca. Seria matar ou morrer.

A coisa chegou a tal ponto que altos dirigentes africânderes foram várias vezes à cadeia atrás de Mandela a fim de propor acordos para libertá-lo, que foram todos rejeitados. Os argumentos usados por Mandela para isso foram que 1) acordos só se fazem entre pessoas livres e em condições de igualdade e 2) ele não trairia as pessoas que estavam lá fora pagando com as próprias vidas para transformar a realidade em que viviam.

(Volto a dizer que Mandela não se manteve na prisão "por puro e simples capricho", como já ouvi por aí. Ele havia sido preso por acreditar num ideal, por lutar por um povo, e somente se consideraria liberto em prol desse mesmo povo pelo qual tanto lutou e havia sido preso. Luta antirracista, como eu já disse, é coisa muito perigosa, e quem se mete nisso precisa ter em mente que tudo pode acontecer.)

O que mais me deixou impressionado ao estudar a história de vida de Nelson Mandela foi o caráter dele. Mesmo após ter passado 27 anos na cadeia, ele saiu de lá com vontade de viver. Muita gente por aí teria desistido lá dentro mesmo. Ele, não. Resistiu a tudo com bravura e serenidade após ter feito o que pôde para mudar o país (e não ficou maluco), e fez muita coisa depois de ter sido libertado. Uma das principais foi a Comissão da Verdade e Reconciliação, sob a responsabilidade do arcebispo Desmond Tutu, com vistas a sanar as feridas deixadas pelos anos de brutalidade racial e unificar o país.

Ele saiu da cadeia em 1990, e, em 1994, tornou-se o primeiro presidente negro da África do Sul. Ao final do seu mandato (1994-1999), rejeitou uma recondução ao cargo e passou a atuar em campanhas de combate à AIDS (que, na África do Sul, atinge níveis alarmantes).

Em 2004, retirou-se definitivamente da vida pública. Fez a sua última aparição em público na final da Copa do Mundo de 2010, disputada entre Espanha e Holanda. Com a saúde muito debilitada, procurou passar os seus últimos anos de vida em paz, mais próximo da família.

Homenagens a Nelson Mandela e a hipocrisia do racismo à brasileira

A morte de Mandela repercutiu no mundo inteiro, e o Brasil não ficou de fora. Várias reportagens foram exibidas na televisão, todas elas ressaltando a importância dele para a luta contra a segregação racial, a atuação dele na conciliação nacional pós-apartheid, e coisas do tipo. Apesar disso, eu fiquei bastante incomodado com o que vi na imprensa a respeito do assunto.

E o que mais me incomodou foi, como disse Carlos Moore, a profunda hipocrisia do racismo brasileiro. Pois o país que rasga elogios e rende homenagens a Mandela é o mesmo país que, nas palavras de Orlando Patterson, mantém um apartheid sem as leis do apartheid – o que o torna bem mais cruel, sangrento e difícil de ser combatido.  


A sociedade brasileira que, nesse momento, está a exaltar a figura de Mandela é a mesma sociedade que, apesar de todas as evidências, ainda insiste em negar a existência do racismo no Brasil. Que criminaliza toda e qualquer pessoa ou grupo que tenta, a duríssimas penas, fazer aqui a mesma coisa que Mandela fez na África do Sul durante a vida inteira: lutar contra o racismo. O recado dado através dessas ações é muito claro: ícones revolucionários são bons e devem ser exaltados - mas os dos outros. Os nossos não passam de vândalos que querem impedir o progresso e colocar um entrave ao desenvolvimento econômico do Brasil. Um grupo que nunca conseguirá promover, por mais que tente, um “racismo ao contrário”.



É esse o mesmo país que exalta a figura e a atuação de Nelson Mandela por um lado, mas faz o que pode para barrar as ações afirmativas nas universidades. Que se recusa a aplicar a lei 11.645/08 na educação básica. Que permite que as nossas crianças sejam massacradas pelo racismo odioso contido nos livros de Monteiro Lobato. Que ameaça expulsar da escola um menino negro cuja mãe se recusou a cortar os cabelos dele por serem “diferentes”. Que chora até hoje a morte de 245 jovens brancos e universitários que estavam na farra num boate em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, mas não se sensibilizou nem um pouco quando o BOPE entrou no Complexo da Maré e matou dez pessoas inocentes em um ato flagrante de vingança policial. Que lamentou o fato de “só” terem morrido trezentos mil pretos no terremoto que devastou o Haiti em janeiro de 2010. Que entrou em pânico quando um grupo de adolescentes pretos, "parecendo com um bando de ladrões" entrou num shopping de luxo em São Paulo - uma vez que shopping não é lugar de pobre. Que acha um absurdo inominável quando acontece um tiroteio nas áreas nobres ou quando avitrine de uma loja de luxo é apedrejada, mas não se comove nem um pouco quando há tiroteio intenso com mortes no morro[3] ou quando um preto favelado é morto sob tortura dentro de um quartel da PM ("alguma coisa ele fez, pois ninguém morre de graça"). Que se recusa terminantemente a reconhecer a empregada doméstica que faz o nosso serviço sujo como trabalhadora, pagar-lhes um salário decente e reconhecer-lhes os direitos trabalhistas, e acha normal fazê-las subir pelo elevador de serviço e confiná-las nos quartos de empregada,verdadeiras versões contemporâneas das senzalas.[4]    


A forma como a trajetória de Mandela foi mostrada nas reportagens constituem um capítulo à parte. Mandela foi mostrado sempre como o “conciliador”, o sujeito que derrubou o regime de segregação racial com discursos ponderados e palavras muito bem selecionadas. Não foi isso. Dennis Oliveira foi muito feliz ao evidenciar que Mandela foi conciliador quando a situação exigiu esse tipo de postura da parte dele. Pois quando o regime endureceu o jogo, ele optou pela rebelião armada. E mais: os altos dirigentes do apartheid só aceitaram negociar com Mandela por conta de toda a pressão internacional exercida contra a África do Sul durante os anos de terror e do consequente isolamento decorrente dessas pressões e sanções internacionais.

Também concordo com Oliveira com relação ao absurdo que foi Mandela ter dividido o Prêmio Nobel da Paz com Frederik Willem de Klerk, presidente da África do Sul à época. De Klerk não negociou a libertação de Mandela e a transição política porque era bonzinho e estava com peninha daquele preto que estava preso há quase trinta anos, e sim porque o país estava isolado por conta da enorme pressão e das consequentes sanções econômicas e boicotes impostos pela comunidade internacional decorrentes dos anos de terror. Segundo o arcebispo Tutu, seria impossível acabar com o apartheid só através da luta interna. Se não houvesse pressão internacional, seria bem provável que a elite branca ainda estivesse no poder até hoje.

Quem está no poder só aceita negociar quando se sente pressionado, nunca por benemerência. Como disse Assata Shakur, não é possível acabar com um regime de terror apelando para os bons sentimentos de quem nos oprime, uma vez que quem nos oprime não tem bons sentimentos. Ou nós nos organizamos para exigir o que é nosso, ou nada feito. E foi exatamente por ter feito isso que Mandela foi caçado e enjaulado durante 27 anos.  Só que as reportagens não destacam isso – e nem destacarão. É bem mais conveniente mostrá-lo como o preto-velho pacifista, o campeão da paz, e esconder toda a importância que ele teve na estruturação da luta armada ao regime racista.


Vá em paz. E muito obrigado por tudo

Minhas sinceras e respeitosas condolências à família, bem como ao povo sul-africano que, nas palavras de Leonardo Boff, não se cansou nem por um minuto de dançar e cantar nos rituais públicos consequentes ao anúncio da morte do grande líder da nação sul-africana. Mandela morreu fisicamente, mas ainda continuará vivo na cabeça de toda e qualquer pessoa comprometida com a superação do racismo no mundo.

Devo dizer que Mandela, corpo físico, se foi, mas seus ideais aquecem como brasa viva em cada cidadão e cidadã que encampa a luta antirracista em qualquer metro quadrado de cada canto do mundo.

Amandla!



[1] VAIL, John. Winnie e Nelson Mandela. Coleção Os Grandes Líderes. São Paulo: Nova Cultural, 1988, pp. 7-16.
[2] MANDELA, Nelson. Long Walk to Freedom. London: Abacus, 1995, p. 1-2.
[3] “A luta por direitos humenos é a essência da nova luta de classes”. Entrevista dada por Marcelo Freixo a Glauco Faria e Igor Carvalho. Fórum: outro mundo em debate. São Paulo: Publisher Brasil. Ano 12, número 121, abril 2013, p. 29.
[4] LARA, Fernando. “A exclusão no espaço doméstico”. Fórum: outro mundo em debateSão Paulo: Publisher Brasil. Ano 12, número 121, abril 2013, p. 36-37.

domingo, 8 de setembro de 2013

Vai dar merda. E não deu outra

(Esse texto foi escrito na madrugada de sexta para sábado. Só não o publiquei antes porque não havia conexão á internet no local em que eu estava na hora. Por isso, publico-o agora.)

Eu acho que há dias em que o mundo, a natureza ou sei lá o que mais, de vez em quando, se programa especificamente para fazer com que tudo dê errado na vida de uma pessoa em um determinado dia. Parece que algum ser supremo, dotado de poderes ilimitados e de um caráter muito questionável, escolhe aleatoriamente alguém e diz: “o otário do dia será esse sujeito aqui”. Acho que a vítima de hoje fui eu. Querem saber por quê? Vamos aos fatos.

Saí de casa hoje às 15h debaixo de uma chuva desgraçada. Um aguaceiro louco, parecia que não pararia mais de chover. Estava chovendo já desde cedo, quando eu ainda estava em casa preparando a minha aula e, posteriormente, arrumando as minhas coisas para sair. Deu vontade de não colocar o pé na rua, mas eu resolvi encarar o dilúvio que estava caindo lá fora e sair. Afinal, o dever me chamava. Eu já sabia o que teria de enfrentar lá fora, mas eu não sou tão cara de pau a ponto de inventar uma desculpa esfarrapada qualquer para não trabalhar e deixar as minhas turmas lá esperando por mim. Ser um profissional responsável também tem as suas desvantagens, mas enfim. Saí.

Não quis esperar o ônibus perto de casa, pois demora muito – porque nem sempre os motoristas entram no bairro em que eu moro. Quando eles acham que não devem entrar aqui, eles não entram e ponto final. Já liguei várias vezes para a Transalvador a fim de denunciar motoristas que não cumprem o roteiro da linha, mas não deu em nada. Eles continuam fazendo o que querem, e fica por isso mesmo.

Certa vez, ouvi uma pessoa dizer que, em bairros de periferia, motoristas de ônibus e policiais militares fazem o que querem. E essa pessoa está corretíssima. São os motoristas que decidem se devem cumprir ou descumprir o itinerário das linhas de ônibus; se devem ou não devem parar para pessoas idosas, mulheres grávidas e cadeirantes. A população fica na mão deles. Dia desses, minha esposa chegou em casa estarrecida com um comentário que ouviu dentro de um ônibus. Contou ela que pegou um ônibus da empresa Praia Grande, que operava a linha Paripe-Aeroporto (código 1653-1), quando um rodoviário da mesma empresa estava conversando com o motorista do ônibus. O rodoviário disse: “É, fulano, você gostou dessa linha mesmo, né? Já faz um bom tempo que você está aqui, e, pelo visto, não quer mais sair”. Ao que o motorista disse: “Pra que eu vou sair, rapaz? Essa linha é boa demais. Eu fazia a linha Paripe-Barra (código 1607). Era um saco, pois havia um fiscal em cada ponto e eu era obrigado a parar e pegar ‘tudo quanto é passageiro’. Aqui em Cajazeiras, não tem fiscal nenhum e por isso eu dirijo do meu jeito”.

Outra vez, minha mãe disse que pegou um ônibus no Aquidabã depois das 22h. Fazenda Grande 4/3/2 – Comércio, da empresa São Cristóvão (código 1439). Ao chegar a Águas Claras, o motorista, ao invés de seguir em direção ao fim de linha de Águas Claras, virou no sentido da Estrada do Matadouro. Quando algumas pessoas protestaram e exigiram que ele retornasse e respeitasse o itinerário da linha, ele, com a cara mais cínica do mundo, olhou para as pessoas e disse que “depois das dez da noite, quem faz o roteiro da linha sou eu”. Foi preciso que o povo fizesse muito mais escândalo para o sacripanta retornar e passar pelo fim de linha de Águas Claras.

Mas voltando. Resolvi ir andando até a saída do conjunto onde moro e tentar pegar um ônibus mais lá na frente. Estava usando uma camisa branca. No meio do caminho, cerca de cinco minutos depois de sair de casa, um ônibus passou em cima de um buraco e, em consequência disso, a lama respingou e sujou a lateral direita da minha camisa. A camisa que eu havia acabado de tirar de dentro do guarda-roupa, cheirosinha, branquinha. Não fiquei mais puto de raiva porque estava carregando duas sobressalentes na mochila, e por isso tive a certeza de que não teria de usar aquela camisa suja por muito tempo (ledo engano). Até pensei em parar em algum lugar e trocar a camisa no meio da rua mesmo, mas achei melhor não fazer isso. O ônibus poderia passar e eu fatalmente o perderia. Segui meu caminho.

Procurei manter a cabeça fria – e consegui. Calculei as possibilidades, e concluí que seria melhor não passar por Águas Claras, pois se o trânsito por lá já é uma bosta em dias ensolarados, a coisa piora vertiginosamente em dias de chuva. Alaga tudo, e ninguém passa – e eu não podia correr o risco de pegar nenhum congestionamento. Afinal, a BR-324 fica sempre congestionada por conta daquela cratera enorme aberta no Porto Seco Pirajá, que deixou o trânsito muito pior do que já era por aquelas bandas. Se uma cratera daquele tamanho surgisse na frente da Arena Fonte Nova, estaria fechada no dia seguinte. Mas como é no Porto Seco Pirajá...

Achei mais prudente sair por Mussurunga. Fui andando em direção ao ponto, com uma mochila nas costas, carregando meu marmitex com a mão esquerda e segurando o guarda-chuva com a mão direta. Um cenário desesperador. Mais alguns metros adiante, um sujeito passou pertíssimo de mim montado num cavalo. E eu passei bem no instante em que a pata direita frontal do cavalo pisou um buraco, e a água podre voou e bateu no meio da minha cara. Quando isso aconteceu, pensei “hoje é meu dia”. E foi mesmo. Um dia de horror. Naquela hora, eu intuí que tudo daria errado para mim hoje. E deu.

Continuei andando em direção ao ponto. Ao chegar lá, vi o Estação Mussurunga da Central vindo lá embaixo. Ótimo, pois eu não teria de andar mais. Bastava esperar o ônibus fazer o retorno que eu o pegaria na volta. Mas alimentei a esperança de vir um Estação Mussurunga da Barramar, que é a melhor linha de ônibus em direção a Mussurunga, pois não entra em Vila Verde. E foi isso que aconteceu. O ônibus veio, mas o escroto do motorista não teve a decência de parar o ônibus no ponto. O canalhocrata parou um pouco atrás e abriu a porta de entrada, só para eu e uma outra passageira termos de correr debaixo de chuva para entrar na marinete. Que féla!

A viagem até Mussurunga transcorreu muito bem. Mas foi só isso. Quando eu cheguei, vi o ponto do Barra 1 totalmente vazio. Não havia um pé de pessoa na fila. Bufei. Era cerca de 15:30h quando eu desembarquei, e, ao ver a fila vazia, constatei que teria de esperar até as 16h por outra marinete. Como um homem prevenido vale por dois, parei na fila, coloquei a mochila na frente, peguei uma revista que estava dentro da mochila e comecei a lê-la. Foi a melhor coisa que eu poderia ter feito, pois foi isso que conseguiu me acalmar. Estou chegando à conclusão de que os meus livros, as minhas revistas, uma Skol litrão e a companhia da minha esposa são as únicas coisas que conseguem me manter relaxado nessa vida.

Depois de ler algumas páginas, finalmente apareceu o Barra 1. Às 16h, como eu havia previsto. Eu era o segundo da fila, mas, mais uma vez, o sacripanta do motorista não parou no lugar certo. Parou um pouco atrás e abriu a porta. Com isso, quem estava atrás entrou antes de mim por causa da sacanagem que o féla fez. Só não foi pior porque a fila não estava muito longa, pois, se estivesse, as pessoas poderiam invadir e eu correria um grande risco de ir em pé. Mas, para minha felicidade, eu achei um lugar no fundo do ônibus. Me sentei, fechei as janelas por conta da forte chuva e continuei a ler a revista.

Um ponto depois, um sujeito entrou no ônibus. Como não havia mais assentos vagos, ele parou em pé bem do meu lado. Ele estava quieto, mas bastou o cara me ver concentrado na minha leitura para ligar o som do celular dele no último volume. Por pura e simples sacanagem, nada mais do que isso. Precavido, tirei o abafador de som da mochila e coloquei nos meus ouvidos. Só que na hora em que eu abri os abafadores para posicioná-los acima da minha cabeça, o abafador direito escapoliu da minha mão e bateu na minha testa. A porrada foi tão forte que se formou um pequeno hematoma no lugar da pancada. Como dizem os mais experientes, “além da queda, o coice”. Mas eu cobri os meus ouvidos com os abafadores, olhei sarcasticamente para a cara do safardana e voltei a ler. Só não foi melhor porque o abafador não me deixa totalmente surdo, como era a minha vontade, mas a redução do impacto do som foi significativa para eu conseguir me concentrar novamente.

O sujeito estava tão com vontade de me sacanear que, assim que me viu com os abafadores de som nos ouvidos, saiu e foi fazer a zoada dele lá na frente. Diga se uma pessoa dessa estava ou não estava a fim de tirar sarro da minha cara!

Apesar da chuva, a Paralela estava livre – o que é quase um milagre! O trânsito estava bom, apesar dos pesares, e eu estava pensando que não enfrentaria mais problemas no meu caminho. Ledo engano. Assim que o ônibus saiu da via exclusiva do Iguatemi, parou. A Rótula do Abacaxi estava toda travada. Não passava nada por aquela bosta! O motorista até tentou encontrar uma maneira de driblar o congestionamento: ao invés de fazer o retorno na entrada da Ladeira do Cabula para entrar na Av. Heitor Dias, ele subiu o viaduto que liga a Av. ACM à Av. Barros Reis e fez o retorno na frente da Bremen. Mas não houve jeito. O trânsito também estava parado no outro sentido, e foram necessários cerca de quinze longos minutos para o ônibus percorrer o trecho que vai da Bremen até a entrada da Av. Heitor Dias. E já passava das 17h.

Enfim, o ônibus conseguiu sair daquele gargalo. Pensei eu que não enfrentaria mais problemas, mas me enganei de novo. A Av. Heitor Dias, os Dois Leões e as Sete Portas estavam totalmente congestionadas. Trânsito lentíssimo. Só não pirei porque estava lendo, e uma boa leitura me deixa de fato mais calmo e com a frieza necessária para pensar nas possibilidades e fazer os devidos cálculos. Tinha esperança de pegar a lancha das 17:30h, mas não foi possível. Deu 17:20h, e eu ainda estava na entrada da rua Djalma Dutra. Deu 17:24h, e eu ainda estava no Aquidabã! Ao constatar que não seria possível chegar a tempo, liguei para o coordenador e pedi para ele colocar outra pessoa para dar aula no primeiro horário, visto que eu não chegaria a tempo. Eu odeio quando isso acontece, pois eu saí de casa cedo justamente para não passar por isso. Mas, como disse Ermínia Maricato, as cidades estão cada vez mais insuportáveis[1]. E estão mesmo. Não há mais hora para pegar congestionamento em Salvador.

Quando a marinete saiu do Túnel Américo Simas, vi que a Av. Jequitaia estava toda parada. Pensei eu que enfrentaria mais um engarrafamento entre os Fuzileiros Navais e o Moinho Salvador, mas não enfrentei. O ônibus seguiu viagem.

Desci no ponto do Terminal da Lancha. Como já tinha perdido a primeira aula, resolvi relaxar. A fila do guichê de passagem do Terminal estava um pouco grande, começou a chover, e havia gente furando a fila. Um passageiro que estava atrás de mim começou a gritar e xingar os espertinhos que estavam furando a fila. Como o cara se voluntariou a fazer o serviço sujo, eu fiquei calado. Comprei a minha passagem e entrei na lancha das 18h.

Infelizmente, eu tive de viajar numa lancha que possui aparelho televisor. Digo isso porque eu não gosto mais de televisor. Não tenho mais paciência para ver nada do que é exibido na telinha. Nem futebol, que eu gostava tanto, eu suporto mais ver. A melhor coisa que eu aprendi a fazer nos últimos três anos foi deixar o aparelho televisor da casa em que moro desligado durante a maior quantidade de tempo possível, e eu garanto a vocês que eu não estou perdendo nada.  

É irritante viajar em lancha com aparelho televisor também porque os tripulantes invariavelmente colocam o aparelho no último volume. Um saco! Eu costumo aproveitar o tempo de travessia para adiantar umas leituras e distrair a minha mente (leitura também é diversão). Entretanto, o que essa sociedade escrota menos quer é que nós tenhamos tempo para pensar. Tudo é feito para nós não termos um minutinho sequer de tranquilidade e silêncio. Temos de estar a todo tempo com alguma coisa para fazer, sendo monitorados e ordenados por alguém, e, no nosso tempo de descanso, alguma coisa – ou alguém – tem de nos atormentar[2] e nos perturbar para que nós não tenhamos a menor chance de ler, de conversar, de assistir a um filme ou a um documentário e consequentemente refletir sobre as nossas condições de existência.

Uma coisa que eu aprendi depois que comecei a me envolver nesse negócio de movimento negro é que uma folha não cai de uma árvore sem um motivo. As coisas não são do jeito que são porque sim, porque deus quis assim, porque é da vontade do senhor, nada dessas babaquices que o cristianismo enfia nas nossas cabeças. Há uma razão muito bem definida para as coisas serem do jeito que são. E essa barulheira desgraçada que enfrentamos cotidianamente (roncos de motor de ônibus; o vizinho babaca que tira o silenciador da descarga da moto para mostrar ao bairro inteiro que tem uma moto e, com isso, tentar comer alguém; outro vizinho igualmente babaca que coloca no carro um jogo de som mais caro do que o próprio carro com vistas a transformá-lo num mini trio-elétrico; o dono do boteco da esquina que coloca o som nas alturas para atrair a clientela; a vizinha que passa o dia inteiro gritando e “cantando”; outra vizinha que chega tarde e fica do lado de fora gritando para a filha dela abrir a porta) não foge a essa regra. Isso faz parte de uma estratégia de dominação. De segunda a sexta, nós não temos tempo de ler e de refletir porque precisamos acordar cedo para trabalhar e voltar para casa lá pelas tantas da noite, cansado, com fome, com sono, com vontade de tomar um banho e cair na cama. Sábado e domingo, quando não trabalhamos (isso não é uma regra, pelo contrário), não conseguimos ler nada em casa porque a vizinhança não deixa. O crime perfeito!

Voltemos à minha epopeia. Estava eu dentro da lancha das 18h. Como tinha terminado de ler a revista, coloquei de novo o abafador de som e comecei a ler um livro. Minutos depois, um colega de trabalho sentou do meu lado. Conversei com ele rapidamente, e disse que não estava a fim de papear muito porque precisava ler um texto para a minha aula de hoje. Ele compreendeu, até porque ele também estava cansado e também não estava a fim de papo. Ligou o som do celular, colocou o fone nos ouvidos e ficou lá na dele. Só que, alguns minutos depois, ele pegou no sono e começou a dar “quedas de asa” perto de mim. A cabeça dele caía toda hora e batia no meu ombro. Aquilo estava me irritando tanto que eu tive de acordá-lo a cotoveladas. Ele acordou assustado, perguntando se já tínhamos chegado ao destino final. Eu disse que não, e que só o acordei porque a cabeça dele estava batendo a toda hora no meu ombro esquerdo e estava dificultando a minha leitura. Ele entendeu. Cruzou os braços no encosto da cadeira da frente e baixou a cabeça. Dormiu até a hora de chegar ao ancoradouro de Mar Grande.

Cheguei. Deixei as minhas coisas lá no meu local de trabalho e fui à padaria em busca de um lanchinho. Perguntei ao funcionário da padaria se havia bolo de aipim. Ele disse que não. Eu agradeci e fui embora. Pensei que daria aula com fome, mas felizmente alguém (não sei quem) deixou um pratinho com canjica lá na secretaria do cursinho. Eu comemorei. Comi um pedaço e tomei um gole de café. Como daria aula no segundo horário, resolvi pegar meu livro e ler mais um pouco. Mas não consegui. Um menino parou na porta e gritou alguma coisa sem sentido para mim. Não dei importância. Logo depois, um homem chegou lá à procura de uma estudante. Fui à sala de aula chamá-la, mas ela não estava lá. Ele disse que esperaria um pouco, e sentou do meu lado “para me fazer companhia”. Ele até tentou puxar conversa, mas eu enfiei a minha cara no livro e nem olhei para os lados para ver se ele entendia que eu não estava nem um pouco interessado em conversar com ele. Ele entendeu o recado, e ficou calado lá à espera da pessoa que ele estava procurando. Como a mulher não apareceu, ele desistiu de esperar e foi embora. Que bom! Suspirei de felicidade!!

Eis que chegou a hora da minha aula. Liguei o projetor e o computador para exibir os meus slides, mas havia um problema na tela do computador que eu não consegui resolver. Uma mensagem chata que insistia em não sair, por mais que eu clicasse no X vermelho. Tive de trocar de computador. Perdi dez minutos nessa brincadeira.

Arranjei outro computador. Exibi os slides e iniciei a aula. Estava eu lá fazendo o meu trabalho, no meio das minhas reflexões, articulando altas ideias e respondendo as perguntas feitas pela turma. Eis que chega uma das coordenadoras na porta da sala, me chama e pede para eu falar mais um pouco porque o professor que daria aula no último horário não chegaria a tempo. Comemorei. Teria mais uma hora para apresentar os slides que eu preparei. Mas como diz o ditado popular, “alegria de pobre dura pouco”. Cerca de cinco minutos depois, a secretária apareceu para dizer que eu teria de suspender a aula porque o motorista do ônibus escolar disse que iria embora e não voltaria às 22h para levar os e as estudantes para casa. Isso posto, eu fui obrigado a encerrar mais cedo. Afinal, eu não podia exigir que as pessoas voltassem para casa andando e debaixo de chuva.

Era 21h. Pedi a um estudante para esquentar o meu marmitex no micro-ondas. Jantei. Aproveitei para trocar umas ideias com ele e tentar esfriar a minha cabeça depois de tanta miséria que aconteceu comigo. Eis que às 21:54h, um colega meu ligou para perguntar onde eu estava porque ele queria entrar no apartamento, chamou, chamou e eu não respondi. Eu disse que não respondi porque eu não estava lá. E ele disse que estava na pizzaria tomando uma cerveja, e me chamou para ir lá também. Fui. Me sentei, pedi um copo e comecei a conversar enquanto bebia uma cerveja preta. Alguns minutos depois, e para coroar o dia de merda que tive, recebi uma bela cagada de pombo vinda do alto de uma árvore. A bosta só não caiu na minha cabeça porque eu inclinei um pouco o corpo para frente, e por isso o cocô bateu no encosto da cadeira e sujou as costas da minha camisa.

Pronto. Foi esse o meu dia hoje. Vou tomar um banho e dormir, para ver se a água leva essa energia ruim pelo ralo. Espero que o dia de amanhã seja totalmente diferente do que foi hoje.

Desgraça pouca é bobagem.



[1] “Era óbvio. As cidades estão insuportáveis”. Entrevista dada por Ermínia Maricato a Adriana Delorenzo. Fórum: outro mundo em debate. Ano 12, n. 124, julho 2013, pp. 18-19.
[2] BIKO, Steve. Escrevo o que eu quero. São Paulo: Editora Ática, 1990, p. 96.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

A tal meritocracia

Ai, esse Facebook que me domina! Não há um dia em que eu não veja algo que me fascine, me revolte, me surpreenda – positiva ou negativamente - ou que me deixe intrigado ao acessar diariamente essa mídia social.

Hoje de manhã, acessei-o e me deparei com a foto abaixo. Mais uma vez, comecei a escrever um comentário a ser colocado no perfil da pessoa que o repassou, só que, como sempre, saiu tanta coisa que eu resolvi reelaborá-lo, transformá-lo em texto e publicá-lo no meu bloguito. Eu já cheguei à conclusão de que, como já disse em outro texto, os meus escritos só saem da mesma forma que caldo de cana e os repentes de Caju e Castanha: feitos na hora.



Eu cresci vendo a minha avó e a minha mãe dizerem que as melhores comidas que já prepararam sempre saíram na base do improviso. Em épocas de despensa mirrada e geladeira vazia, quando nós estávamos “com os dentes na parede, roendo o reboco para comer os tijolos”, como disse meu tio Valter, o procedimento era sempre o mesmo: misturar um tempero ali, umas pontinhas de carne de sertão e chouriça frita aqui, um resto de feijão acolá; jogar tudo dentro de uma panela, acrescentar azeite de dendê e o produto final dessas misturebas sempre foram iguarias deliciosas que elas nunca conseguiram fazer de novo. Espero eu que aconteça a mesma coisa com esse texto.

Ao trabalho.

Não me agrada nem um pouco ver mensagens desse tipo associadas a fotos como essa porque isso me parece muito escroto. Como diz Gilberto Gil, “repare”: o menino estuda em condições subumanas, sem a mínima condição necessária para uma pessoa estudar e aprender, sentado em um garrafão de gasolina, com o caderno apoiado sobre um banquinho e com a coluna toda curvada – em total desconforto, o que lhe renderá uma tremenda escoliose em pouquíssimo tempo. E se o ambiente não for bem iluminado, ele fatalmente desenvolverá problemas oftalmológicos com a mesma rapidez que adquirir problemas de coluna.

Provavelmente, ele deve ser mais um subalimentado que tem de revirar sacos de lixo em aterros sanitários em busca do que comer ou revirar as lixeiras da Estação Pirajá e catar um resto de acarajé cuspido para aplacar a fome. (Eu já vi isso um dia à noite, na volta do trabalho, e nunca esqueci – e nunca esquecerei - essa cena que as outras pessoas que estavam na fila nem viram de tão naturalizada que é. “Não quero ter de achar normal ver um mano meu coberto com jornal”, como disseram os Racionais MCs na música Rapaz Comum.) Deve também morar longe pacas da "escola" e tem de ir e voltar todo dia a pé por falta de dinheiro para pagar a passagem do buzu ou por morar em um lugar de difícil acesso e não ter transporte escolar. Como se isso tudo não bastase, ele muito provavelmente tem de trabalhar o dia inteiro vendendo picolé na Lapa ou limpando para-brisa de carro na sinaleira do Iguatemi.

Qual é a condição que esse menino tem de obter um bom aprendizado? Qual é a chance que esse cara tem de se tornar médico, advogado, professor, engenheiro mecatrônico ou ministro do STF em comparação a uma criança que teve todo o suporte necessário para estudar e aprender? Que tem livros à farta em casa, internet banda larga à disposição, comida na mesa e não precisa trabalhar desde cedo para sobreviver?




É muito fácil e canalha da nossa parte olhar para a cara desse menino e dizer que basta apenas se esforçar para conseguir chegar lá. Que as oportunidades são iguais para todos, e só não as aproveita quem não quer. Que ele reclama demais. Que não é a escola que faz o aluno, e sim o aluno que faz a escola. Que só não vira "alguém na vida" quem não quer nada com a hora do Brasil. Que “esses meninos não querem nada”. Que basta batalhar, ser perseverante, ter força de vontade e não desistir que a vitória é certa. Se vire, dê seus pulos, trabalhe que você consegue, se esforce, se empenhe, vá à luta, porra!, seja brasileiro, não desista nunca!!


Só é possível lutar quando há condições. Quando, após ter feito vestibular duas vezes e não ter passado, a minha mãe perguntou se eu queria fazer de novo, e, após ter dito que sim, ela disse que eu teria de dar o meu jeito porque ela não tinha mais dinheiro para isso, eu fui à luta. Aconselhado por Carlão, um colega de cursinho, procurei o professor de Matemática, George Dória (agradeço publicamente a ele aqui), contei o meu rosário de lágrimas e pedi uma ajuda. E ele deu: disse que não podia me conceder bolsa integral, mas me colocar para pagar só a taxa do módulo. Em termos práticos: reduziu a mensalidade de R$ 90 para R$ 30. Eu aceitei – mesmo sabendo que nem assim eu teria condições de pagar. Como disse Mano Brown, para quem é pobre, preto, favelado e precisa superar 350 anos de atraso para vencer, não tem essa de “talvez dê”, “vamos ver se dá” ou “não vai dar”. Tem que dar! Vamos pra cima!!

Não tinha grana para custear o deslocamento até o Centro. Por isso, eu ia andando de manhã cedo de Cajazeiras até Castelo Branco, às 5:15h, bebia um copo d’água e colocava uma pitada de açúcar debaixo da língua, deixava a minha mãe chorando de desespero e com taquicardia em casa com medo de alguém me atacar no meio do caminho para pegar carona com um colega de turma (Luís Alberto, a quem eu agradeço até hoje pelo apoio). Se chovesse no meio do caminho, eu não poderia parar, pois, se parasse, eu perderia a carona. 

Às vezes, ele, ao ver a minha cara de fome, me chamava para tomar o café da manhã junto com ele. Quando ele não fazia isso, eu tinha de me virar: pedia dinheiro a um e a outro descarada e despudoradamente para comprar um suco de laranja e um pacote de biscoito recheado (hábito que deixou os meus níveis de colesterol na estratosfera) sob pena de desmaiar de fome enquanto o professor de Matemática estava dando aula sobre trigonometria.

Quando não rolava carona, eu tinha de ir de ônibus – mesmo sem um puto no bolso. Na hora de descer, eu abria a porta do buzu na tora - ajudado pelos peões de obra de Cajazeiras que, assim como eu, não tinham dinheiro para pagar a passagem da marinete. Descia na última passarela da Av. Bonocô sentido Vale do Ogunjá e ia andando até a Mouraria (quem quer ou precisa viajar sem pagar precisa descer alguns pontos antes como medida de segurança). Estudava o dia inteiro, porque a minha mãe segurava as pontas em casa – se endividando horrores para isso, é claro. E, já na reta final da preparação para o vestibular, eu, após ser proibido de entrar por estar inadimplente, comecei a catar latas de alumínio no lixo para conseguir algum dinheiro. A situação estava tão periclitante que houve dias em que a minha mãe só foi trabalhar porque eu peguei parte do dinheiro obtido com a venda das latas e dei a ela para pagar a passagem.

Em dezembro, mês de revisão final, eu voltei ao cursinho e pedi ao mesmo professor para entrar de novo. Ele, mais uma vez, me colocou para dentro e eu pude pegar mais algumas dicas e fazer a prova. Dicas essenciais para eu conseguir a aprovação no vestibular da UFBA em 2002.

Até hoje, eu me lembro do dia em que eu soube da notícia, 28 de fevereiro de 2002. Estava voltando de Castelo Branco após uma catada de latinha, resolvi passar na casa de Íris, uma grande amiga (onde está você, criatura?) e encontrei a saudosa mãe dela na janela que, ao me ver, disse que o resultado já havia saído e que Íris havia salvado a lista para mim. Ao ver o meu nome lá, saí pulando de alegria pela rua da casa dela até a minha. Quando cheguei em casa, encontrei meu irmão mais velho chorando, gritando e fazendo o maior parnavueiro no prédio por conta da minha aprovação. Ele soube porque Diego e Eliana, colegas de turma (onde estão vocês?), viram meu nome na lista e ligaram para dar as boas novas. Como eu não estava em casa, ele e ela passaram o recado para o meu irmão. Minha mãe ligou em seguida e meu irmão passou a notícia para ela por telefone. Minha mãe tresloucou na rua. Chegou em casa vibrando e chorando loucamente.

Impossível esquecer a comemoração: eu, na frente do prédio em que morei, ao lado de Welber e Juninho, dois vizinhos, pulando e cantando New York, New York.

Escrevi tudo isso para dizer que se não fosse o apoio de todas essas pessoas, eu não teria conseguido porra nenhuma. Sozinho, ninguém faz bulufas de nada. Se dependesse somente de mim, eu já estaria na passarela Iguatemi-Rodoviária vendendo óculos Varney (é assim que escreve?), na Av. Sete ou no Comércio vendendo DVD pirata ou com uma guia de cafezinho na Praça Municipal há muito tempo. É escroto e cínico pra caralho dizer que uma pessoa não venceu porque não se esforçou o suficiente. As pessoas não vencem porque não encontram apoio! Porque não acharam quem desse uma ajudinha. E muitas vezes essa ajuda nem precisa ser financeira, mas apenas uma palavra de motivação. De alguém que olhe para aquele menino e diga “você pode, você é capaz, eu tô contigo; eu tenho pouco, mas esse pouco está à sua disposição”.

É possível que o menino da foto nem isso tenha tido. Ele certamente viveu em meio à desesperança, à invisibilidade social, criado por pessoas que, por terem vivido sob as mesmas condições que ele, nunca se viram como capazes de chegar à universidade ou de ter um bom emprego. Pessoas que foram jogadas na sarjeta social e obrigadas a viver assim. Que nunca tiveram comida na mesa, que nunca tiveram acesso à educação escolar, que cresceram ouvindo que estudo é “coisa de rico” e que “pobre tem que trabalhar”. Que sempre o massacraram psicologicamente dizendo que ele era burro e que não serviria para nada que preste na vida. Ou que nunca incentivaram o menino a estudar não por acharem que isso não é importante, mas porque precisavam dele trabalhando e trazendo dinheiro para casa todo dia. Caso contrário, todos e todas dormiriam “com a barriga nas costas”.


Poderia escrever mais coisas, mas vou parar por aqui porque senão o texto ficará longo demais e eu certamente me perderei. Se quiserem dialogar comigo, fiquem à vontade.

Sobre meritocracia e privilégios sociais, Alex Castro produziu uma série maravilhosa que eu só não vou citar aqui porque o blog dele foi encerrado. Mas há uma palestra magistral proferida pelo professor Hélio Santos sobre o assunto, e que eu recomendo expressamente que vocês vejam se quiserem entender o que é o mérito em uma sociedade desigual, racista e excludente como a nossa: