sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

As sutilezas do racismo

Como bem disse o antropólogo e professor da USP Kabengele Munanga, o racismo não é algo facilmente detectável a olho nu. Para notá-lo, é preciso ter muita atenção e preparo intelectual porque nem sempre (ou quase nunca) os racistas têm a coragem necessária para falar na cara o que pensam sobre os pretos, os africanos e afrodescendentes espalhados pelo mundo.

Ontem, em meio à desgraça causada pelo terremoto que devastou Porto Príncipe, que matou, dentre várias outras pessoas, a fundadora da Pastoral da Criança, Dra. Zilda Arns Neumann (a quem eu quero manifestar o meu pesar), o cônsul do Haiti no Brasil, George Samuel Antoine, deu uma entrevista ao SBT com declarações ultraofensivas ao povo haitiano. Disse ele que "a desgraça lá está sendo uma boa pra gente aqui, fica conhecido", que o terremoto pode ser causado pelo fato de os haitianos "mexerem tanto com macumba", e, para completar, disse que "o africano em si tem maldição. Todo lugar que tem africano está fodido".


Eu não sei o que foi pior: o cônsul do Haiti ter dito todas essas merdas acerca da afrodescendência da população haitiana ou a repórter Helaine Cortez ter tentado minimizar as declarações desse racista asqueroso ao dizer que "com tanto sofrimento, não é possível que o cônsul pense mesmo no que falou. Ele só pode estar tão abalado quanto as famílias e em busca de conforto espiritual para a tragédia"

Boa maneira essa de buscar conforto espiritual após uma tragédia!! Já passei por alguns momentos difíceis na vida (nenhum deles tão grave quanto esse que o povo haitiano está sofrendo, é claro), mas que direito eu teria de ofender outras pessoas por causa disso? E mais: que direito eu teria de agredir as religiões de matriz africana ao imputá-las a responsabilidade por tamanha desgraça a um país já bastante massacrado pela miséria?

Ele não pensou no que disse o cacete!! Essa excrescência humana sabia muito bem o que estava dizendo. É muito fácil ofender alguém e depois dizer que fez isso porque estava de "cabeça quente", que "estava muito abalado" e que, portanto, "não sabia o que estava dizendo". Esse sujeitinho só falou isso porque tinha certeza de que não estava sendo gravado. Pois se ele desconfiasse que a câmera estava ligada, jamais teria dito o que pensa sobre os africanos e os afrodescendentes.

Boris Casoy fez a mesma coisa ao humilhar publicamente os trabalhadores da limpeza pública da cidade de São Paulo que deram uma mensagem de Feliz Ano Novo no dia 31/12/2009. Se ele sonhasse que o microfone dele estava ligado, ele jamais teria dito o que pensa acerca dos garis. Entretanto, o que poderíamos esperar de um homem que hoje posa de paladino da democracia, mas que no passado apoiou a ditadura militar ao fazer parte do Comando de Caça aos Comunistas? Quem quiser tirar as próprias conclusões, clique aqui.

Declarações como essas me revoltam, mas não mais me surpreendem porque os covardes são assim mesmo: só atiram pelas costas.


2 comentários:

  1. Não quero nem pensar no que ele diria se não estivesse abalado com a situação que ocorre no Haiti.

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  2. Eu estava em casa e assiste essas declarações, achei tão absurdo que fiquei brigando com esse cônsul pela tv, nem na imaginação mais fértil dá pra pensar uma situação dessas.
    E também achei ridícula a declaração tendenciosa de outro representante da embaixada Haitiana querendo tapar sol com a peneira.
    Além do mais, não entendi porque o cônsul do Haiti não reflete a cor da nação.
    Como será que ele chegou a esse cargo despreparado como é?

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